miércoles, 10 de septiembre de 2014

Alice, ou a história do Mar

Ela riu e eu corei. Os espelhos refletiam a luz e provocavam uma sensação estranha: ao mesmo tempo que agrandavam o lugar, faziam-no pequeno, labiríntico, cheio de pessoas iguais umas às outras, de ecos de conversas sussurradas. Cheio de Alice e de sua risada. Cheio da beleza de Alice que em cada reflexo se multiplicava, que em cada reflexo parecia mudar um pouco: aqui com um toque de timidez; ali, um quê de lascívia; mais além, um ar de tristeza e, tudo junto, fundia-se naquela criatura caótica, selvagem que se materializava à minha frente. Naquele barzinho de paredes de pedra e ar-condicionado gelado para compensar o calor das velas dourando o lugar, sua risada ecoou com força. As outras mesas se calaram. O silêncio engoliu o local inteiro; tinha alguma coisa na risada de Alice, na voz de Alice, no jeito de Alice que assustava, que enfeitiçava, que exigia atenção.
Tinha alguma coisa no jeito de Alice que exigia atenção. Não sei se era seu corte de cabelo pós moderno, seu rosto sem maquiagem, suas unhas não pintadas, seu jeito displicente mas, ao mesmo tempo, cuidadoso, frágil, segura de si. Ela não pereceu se importar com o silêncio que abrangeu o barzinho após sua risada espalhafatosa. Não, ela não ligou pra isso, pelo contrário: continuou conversando com um amigo que a acompanhava. Não pareciam namorados. Acho que, em algum momento, ela percebeu meu ar de espanto e encantamento, pois eu aparentemente fui o único a me sentir parte daquele universo novo que era Alice, e de sua risada que acabara com o frio de tantos lugares em mim. Não consegui disfarçar. Olhei para ela meio que encabulado, meio sorridente, meio perdido e curioso. Eu queria conhecer Alice. Ela comentou algo com o amigo. Ele me olhou. Talvez eu ainda estivesse com a pele vermelha, o sangue fazendo corar o rosto e, em minha mente, um único nome reverberando: Alice. Alice. Alice.
"Oi, eu sou a Alice!" O véu de sangue e sonho que cobria minha face foi arrancado de repente. Dan, Dante, Danilo, Daniel, qualquer coisa, se sentou ao meu lado. Ela ficou de pé por alguns instantes, olhou ao redor e chamou a garçonete, pediu champanhe e se sentou, ou melhor se abandonou, na cadeira à minha frente. Aos poucos, o zumbido de conversas cochichadas retornava, preenchia cada fresta do barzinho, mas havia qualquer coisa de diferente. Dante, Danilo, Daniel, Dan segurou minha mão, sua pele quente me lembrou a suavidade da areia. Alice acariciou meu rosto com um dedo fino, quase etéreo, mais parecido ao brilho distante de uma estrela. Nos espelhos, eu já não era parte daqueles rostos repetidos: eu estava com Alice agora, no mundo de Alice, no universo de Alice onde tudo vibrava com energia pura, louca. A loucura de Alice. A garçonete trouxe a garrafa.
Uma garrafa de tinto suave. Não havia mais champanhe. Na verdade, não era justo que, além de minha face agora pálida, até o vinho fosse branco. Não era justo. Eu também não entendi porque Alice pediu champanhe - quem pede champanhe no barzinho? Não percebi que sorri involuntariamente ao pensar isso, e então o Dan, Dante, Danilo, Daniel me perguntou: “Ei, do que você tá rindo?”. Tinto o vinho, e novamente minha face ruborizou-se. O que ia dizer? Pensei rápido: “Sabe que...Você parece o Jim Carrey.” E parecia mesmo. Vários filmes vieram em minha mente, tipo “Procura-se um rapaz virgem”. Alice sorriu novamente. Aquela mesma gargalhada que fez todos do bar olharem pra ela. Era impossível não percebê-la. Eu sorri, e o amigo de Alice também, segurando minha mão com ainda mais firmeza. Tomamos a primeira taça do tinto. Por um momento, Alice não parecia estar ali com a gente. Seu olhar se perdeu no ambiente, sua mente divagava, uma preocupação, não sei, qualquer coisa que tirou ela dali. Eu conversava com o amigo dela. Às vezes ela olhava o vinho na taça, sorria de algo engraçado que a gente falava, já sentindo os efeitos da bebida, mas algo não estava se encaixando. Alice era mistério pra mim. Era como aquelas múltiplas imagens que eu via refletidas e misturadas nos espelhos do bar. Eu queria fazer parte dos pensamentos dela. Dante, Dan, Danilo, Daniel agora estava mais perto de mim, e parecia que a gente se conhecia há muito tempo. Na verdade, eu nem sabia o quanto tinha durado o meu estado de contemplação por Alice, nem que horas deveria ser naquele momento. Eu não me importava. Eu sentia algo por aqueles dois seres que eu acabara de conhecer. Ele ainda segurava minha mão.

Saímos daquele bar escarvado na pedra, D. à minha esquerda, ainda segurando minha mão, era uma espécie de âncora. A suavidade de seu tato, seu calor suave, me mantinham no aqui e agora. Alice ia à minha direita, a leveza de seu toque era um turbilhão, uma corrente profunda, uma onda que arrastava possibilidades infinitas e deixava loucura em sua ressaca. Alice nos puxava para a orla. Chegamos a areia e D. soltou minha mão. Tínhamos a praia para nós três. Sem alguém que me mantivesse firme, meu peito transbordou com a energia de Alice, senti sua força misteriosa e finalmente entendi: não era o fulgor de uma estrela distante, mas o reflexo de todo o firmamento refulgindo nas águas do mar. Alice era o Mar. Dante, Dan, Danilo, Daniel me abraçou pelas costas e Alice escorreu entre meus dedos, correu para o mar, rindo e brincando na água, dançando um baile louco ao ritmo das ondas quebrando contra as pedras e apurando a garrafa. Meu estômago se encheu com o calor de D., sua presença sólida e suave atrás de mim me envolveu, como se tivesse sido enterrado na areia. Dante, Dan, Danilo, Daniel era a Areia. Alice sorriu e caminhou até nós, descalça, seminua, húmida de suor e mar, crua ao lusco-fusco do amanhecer, nos envolveu em seu abraço. Pela primeira vez em muito tempo, me senti completo, possuído por uma felicidade pura, primordial. Arrebatado num êxtase quase religioso, alcei os olhos para o céu e então compreendi. Compreendi-me. Soube o porquê de minha solidão. Os primeiros raios de sol iluminavam uma manhã nua. D. era a Areia. Alice era o Mar. Eu, eu era o Firmamento.

***

Cuento en colaboración con Gleise Almeida, que publica en Alquimia Sensorial (podréis encontrar el link a la derecha, al principio de todo).
Pronto la traducción al español.

miércoles, 29 de enero de 2014

Tus sueños no son tuyos, sino de la humanidad.
Tiempo, espacio, silencio.
El latir suave de su corazón desaparece,
en su lugar, un trueno.
La luna brotó del pozo en cuarto menguante,
el poeta la llamó desde la profundidad
y en el cielo ella miró atrás, llena
de furia o lágrimas.
Tus sueños no son suyos.
El sol en mis ojos, espirales en descenso.
Roto el sueño, queda el desierto:
la arena ruge, el cielo se desata –
hasta la luna llora ante tal silencio.
El sol en mis ojos, fiebre en Siberia.
Perlas de sudor reflejan las estrellas:
se cree en una pasarela y se adentra
entre los chopos -sus sueños no son tuyos-
tan desnudo (silencio) como ellos.

(hecho a partir de tweets)

miércoles, 8 de enero de 2014

La segunda venida.


Cerré los ojos y no dormí. Entre las explosiones brillantes que llenaban la oscuridad de estallidos rojos, verdes y azules se perfiló su forma.
Llegó como perdida, pero sabía que me buscaba. Nada más verme, sonrió. La última vez que hablamos fue hace siglos -yo lo digo como una exageración metafórica, ella me corrige: "siglos, no. Eones"; y sé que lo dice literalmente.
La loca me sonríe una vez más y un estallido púrpura la deja a contraluz. "¿Llegaste a alguna conclusión?", quiere saber; pero, antes de que siquiera abra la boca, asiente y dice: "no importa". Noto un tono de tristeza en su voz y me digo que  uno no puede caminar por el universo -mi mente se empeña en gritar "mirar el abismo"- sin que un poco de la tristeza del mundo -mi alma grita "del demonio"- se le quede pegada. Una explosión de chispas azules le ilumina la cara y me veo reflejado en sus ojos.
No puedo evitar sonrojarme. Ella me sujeta por el hombro y siento la electricidad que le recorren los dedos. Espero que ella piense que me sonrojo por las conclusiones a las que llegué desde nuestra última conversación; pero, sé que ella sabe que es porque me he dado cuenta de que la tristeza en su voz es un reflejo de la mía propia.
"Esto tampoco importa", me susurra al oído.
Se separa de mí, caminando hacia atrás y sus ojos se iluminan, a pesar de que no hay ningún estallido. Ella se para y casi puedo ver su sonrisa. "A veces es mejor un 'que te follen' y un apretón de manos a un 'tú otra vez' y una risa hueca", me dice antes de que una explosión blanca me ciegue y ella se desvanezca en la oscuridad.